Fungo da esporotricose aparece em órgãos internos de 11 animais atropelados no Paraná

O fungo que causa a esporotricose, normalmente associado a transmissão entre gatos e a lesões na pele, apareceu nos órgãos internos de animais selvagens atropelados em rodovias do Paraná. O estudo apoiado pela FAPESP foi publicado em março na revista Mycopathologia.
A pesquisa detectou três espécies patogênicas do gênero Sporothrix em mamíferos, aves e répteis, incluindo Sporothrix brasiliensis, que só existe no Brasil. Também foram identificadas S. globosa e S. schenckii, esta última com predominância e já associada a mamíferos e aves.
Os resultados apontam que animais silvestres podem funcionar como reservatórios desses fungos, que causam doença em animais domésticos e também podem atingir humanos, com impacto principalmente na pele e, em alguns casos, chegando ao sistema linfático.
“Não foi possível saber se os fungos estavam em sua forma patogênica nos animais silvestres, mas é evidente que estão circulando mais do que imaginávamos, com potencial risco para a saúde humana e animal”, diz Anderson Messias Rodrigues, professor da EPM-Unifesp e coordenador do estudo.
A investigação trabalhou com detecção de DNA do fungo em tecidos internos, como fígado e coração, e não com confirmação histopatológica. Segundo a primeira autora, Steffanie Skau Amadei, os pesquisadores avaliaram órgãos sem exposição direta ao ambiente — justamente pra reduzir a chance de contaminação externa.
O que as amostras mostraram na prática
- As carcaças foram coletadas nas primeiras horas após o atropelamento em duas rodovias do Paraná
- Entre 2017 e 2023, foram analisadas 178 amostras de tecidos de coração, fígado, pulmão e bexiga de 81 animais
- O DNA de Sporothrix apareceu em 11 animais
- Os tecidos positivos mais frequentes foram coração (seis) e fígado (cinco)
No conjunto, S. schenckii foi a mais frequente, aparecendo em oito amostras de sete animais. Entre os achados, houve detecção em aves, mamíferos e até em um réptil, a cobra-coral-falsa (Oxyrhopus spp.). Entre os mamíferos, os pesquisadores registraram o gato-do-mato-do-sul (Leopardus guttulus), espécie ameaçada.
Já S. brasiliensis, relacionada à maior parte dos casos de esporotricose no Brasil, apareceu em apenas duas aves. S. globosa foi detectada em uma cutia (Dasyprocta spp.), em aves e na coral-falsa, e em dois casos os animais tinham duas espécies de fungo ao mesmo tempo.
Por que isso é importante
Isso muda a forma de pensar vigilância: o estudo sugere que carcaças de animais atropelados podem virar uma ferramenta de monitoramento em saúde, mais barata e efetiva. Também reforça que a pressão humana no ambiente pode fazer a circulação de fungos “atravessar” limites entre áreas rurais, urbanas e silvestres. No fim, fica mais fácil antecipar risco para animais domésticos e para pessoas.
Se até a mata e o asfalto estão contando a história do fungo, quem garante que o “problema de gato” vai ficar só no quintal?
