Pancada no peito pode parar o coração? Cardiologista explica a morte de Jesús de Miguel
Publicado em 04/11/2026, às 16:37
Atualizado há 3 horas
A morte do atacante espanhol Jesús de Miguel, do Tenerife, aos 30 anos, nesta terça-feira (3), levantou uma pergunta: uma pancada no peito pode fazer o coração parar? O jogador sofreu uma parada cardíaca depois de uma colisão com o goleiro adversário durante uma partida da segunda divisão espanhola. Até agora, a causa divulgada é a parada cardíaca.
Para o cardiologista Cláudio Tinoco, professor de medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenador do HSE Lab, em entrevista à fisnews, a principal hipótese é o commotio cordis. "Esta condição é a morte súbita cardíaca desencadeada por impacto torácico aparentemente sem lesão estrutural do coração, costelas ou esterno, distinguindo-se justamente por essa ausência de dano anatômico", explica.
O que é o commotio cordis?
Em outras palavras, o coração para sem ter sido machucado pela pancada. "Por exemplo, uma colisão no tórax pode romper o coração, e isto não é commotio cordis", diz Tinoco.
Segundo o cardiologista, o problema acontece quando a energia do impacto chega ao coração num momento muito específico do batimento: a fase de recuperação elétrica dos ventrículos, chamada de repolarização, que aparece no eletrocardiograma como a parte ascendente da onda T. Isso altera o fluxo de íons nas células do coração e pode desencadear arritmias graves, como a fibrilação ventricular, que leva à parada cardíaca.
Qualquer pancada pode causar o problema?
Não. "Não é qualquer pancada e não é em qualquer lugar do tórax que pode ocorrer o commotio cordis", afirma Tinoco. O local de maior risco é a região do peito que fica sobre o coração.
A força do impacto também importa. Segundo o cardiologista, os casos descritos envolvem impactos de até cerca de 60 km/h. Pancadas mais fortes tendem a causar lesões na estrutura do coração, o que já é outro tipo de problema. Ele acrescenta que parece haver uma suscetibilidade individual: algumas pessoas teriam o coração mais vulnerável.
O que fazer quando acontece?
O atendimento é o mesmo de qualquer parada cardíaca, e o tempo é decisivo. Segundo Tinoco, o mais importante é o acesso rápido ao desfibrilador, aparelho que dá um choque para o coração voltar ao ritmo normal. Ele cita dados da literatura médica: quando o choque foi aplicado até 1 minuto depois do impacto, a sobrevida foi de 100%; quando foi aplicado em 4 minutos, caiu para 46%.
Por isso, segundo o cardiologista, a American Heart Association, associação americana de cardiologia, recomenda que os desfibriladores externos automáticos (DEAs) estejam acessíveis em até 5 minutos do colapso em eventos esportivos organizados.
Diante de uma pessoa que desmaia e não respira, a orientação é ligar imediatamente para o SAMU (192), começar a massagem cardíaca e pedir um desfibrilador, se houver um no local.
O Tenerife confirmou a morte do jogador em comunicado. A família agradeceu as mensagens de apoio e pediu respeito à sua privacidade.
Reportagem: Vitor Cesar
