Mais leitos não resolve: o que 2.338 médicos de UTI apontaram como o problema

Mais leitos de UTI, sozinhos, não resolvem. É o que dizem os médicos que trabalham nessas unidades.
Um inquérito da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), com apoio do Conselho Federal de Medicina (CFM), ouviu 2.338 médicos que atuam na assistência de alta complexidade. Eles deram notas de 0 a 5 a itens essenciais ao funcionamento das UTIs, como infraestrutura, disponibilidade de leitos e de medicamentos, especialização da equipe, fluxos de pacientes e protocolos.
O resultado mostra uma distância entre a percepção sobre os serviços públicos e a sobre os privados. Em 12 dos 13 aspectos avaliados, a avaliação foi melhor no setor privado. A única exceção foram as tarefas administrativas e burocráticas, em que a percepção ficou próxima nos dois segmentos.
Uma observação importante: o inquérito mede a percepção de quem trabalha nas UTIs, e não uma auditoria das unidades.
Onde está a maior diferença
A distância aparece com clareza em três itens.
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Medicamentos essenciais: 22,7% dos médicos consideram a disponibilidade totalmente adequada no SUS, contra 57,7% no setor privado ou vinculado a planos. Pelo lado das notas baixas, 16,1% classificaram a oferta na rede pública como inadequada ou totalmente inadequada, contra 3,8% no privado.
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Leitos: 24,1% deram nota máxima à suficiência de leitos no SUS, contra 51,4% no privado. As notas mínimas vieram de 32,6% dos médicos para a rede pública e de 7,7% para a privada.
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Protocolos: 23,1% deram nota máxima ao acesso a protocolos de atendimento e de conduta clínica no SUS, contra 40,2% no privado. As notas mínimas foram de 27,4% para o setor público e de 14,3% para o privado.
A diferença também aparece nas equipes. A presença de equipe multiprofissional especializada recebeu nota máxima de 39,2% dos médicos no setor privado e de 23% no público. Sobre enfermeiros com formação específica em terapia intensiva, a avaliação positiva foi de 25,1% no privado e de 16,9% no público.
O que os médicos pedem
Para a Amib, o resultado reforça a necessidade de políticas que tratem a estruturação das UTIs como prioridade em vários aspectos, e não apenas como expansão do número de leitos.
Entre as recomendações do estudo estão ampliar a formação especializada, estimular a fixação de intensivistas em regiões com menos profissionais, melhorar as condições de trabalho e fortalecer as equipes multiprofissionais (dado da nossa apuração: comunicado da Amib sobre o inquérito).
A associação informou que pretende levar o diagnóstico a gestores públicos e privados e a autoridades de fiscalização e controle. Segundo a entidade, eventuais mudanças teriam impacto em 43.901 leitos de UTI no país, sendo 34.927 de adultos e 8.974 de pediatria e neonatologia.
E a saúde de quem cuida?
Este é um novo recorte de um inquérito apresentado pela Amib em agosto. Em setembro, outro corte do mesmo estudo tratou da saúde mental dos intensivistas (dado da nossa apuração).
Naquela divulgação, 48,5% dos médicos apresentaram alto nível de esgotamento emocional e 31,2%, nível moderado. Além disso, 46,4% relataram baixo grau de satisfação com o exercício da profissão. A Amib avaliou que os achados sugerem vulnerabilidade à síndrome de burnout.
Somados os dois recortes, o retrato é de um sistema em que a diferença de estrutura entre público e privado convive com o desgaste de quem atende os pacientes mais graves.
