Ligia Bahia

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Sou médica sanitarista e pesquisadora, graduada em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1980), com trajetória dedicada ao estudo e fortalecimento das políticas públicas de saúde no Brasil.

Determinantes digitais da saúde

A digitalização e a inteligência artificial ampliam as possibilidades de cuidado, mas também trazem riscos à privacidade, à equidade e à saúde pública. O desafio é estabelecer regras que garantam o uso dessas tecnologias em benefício da sociedade.

Publicado em Hoje.

Determinantes digitais da saúde

As tecnologias digitais foram incorporadas em praticamente todos os aspectos da vida humana, remodelando concepções, práticas e circunstâncias que afetam a saúde.  O relatório mundial da OMS de 2025 sobre os determinantes sociais da equidade na saúde considerou a digitalização como uma “mega tendência” que influencia as desigualdades globais, enfatizando esforços para compreender as  tecnologias e as  indústrias digitais como vetores determinantes para a saúde humana e planetária. 

Os desafios para proteger e promover a saúde pública em um contexto de rápida evolução de capacidades tecnológicas e desigualdades drásticas no acesso a recursos digitais entre os países são incontornáveis. Estamos diante de estruturas dinâmicas coordenadas que impõem um determinado conjunto de concepções e práticas da era digital, tais como:  1) novas formas de participar da política (normas políticas); 2) condução de  negócios (lógicas econômicas) e 3) bases para a realização de  atividades e conexão de redes mediadas digitalmente (infraestruturas), que se relacionam consigo mesmas e com os outros (práticas sociais e pessoais). 

Ferramentas digitais transformaram a forma como as pessoas constroem relacionamentos, aprendem, consomem informações, participam da política, envolvem-se em atividades de lazer, escolhem o que comer e monitoram seus próprios corpos e estados mentais — aspectos que, por sua vez, influenciam a compreensão e os resultados em saúde para indivíduos e comunidades ao redor do mundo.  O setor de tecnologia digital engloba muitas das empresas mais valiosas do mundo que exercem uma influência imensa, desde os mercados internos até a economia global.

 As infraestruturas digitais servem como bases fundamentais para serviços públicos, como a atenção à saúde e áreas emergentes de inovação digital buscam redefinir o bem-estar e a longevidade por meio de uma integração mais profunda entre capacidades digitais e o corpo humano. Os impactos dessas tendências na saúde pública e planetária são transformadores e exigentes de pesquisas, formulação e implementação de políticas. Um mundo dinamizado por uma ordem sociotecnológica apresenta riscos estruturais para a saúde de países como o Brasil.  

As tecnologias digitais trouxeram contribuições importantes para a saúde pública — por exemplo, ao subsidiar a tomada de decisão durante a pandemia de COVID-19 por meio de painéis de informações digitais (como os painéis de monitoramento da COVID-19), facilitar o acesso remoto ao atendimento via telemedicina e aprimorar o manejo de doenças crônicas. Apesar dos avanços, são crescentes as evidências de efeitos nocivos das tecnologias e indústrias digitais sobre a saúde, especialmente a dos jovens.  

A governança do futuro da saúde, baseada no compromisso de zelar pela saúde das gerações futuras se fundamenta em valores de "Saúde para Todos" (democracia, equidade, solidariedade, inclusão e direitos humanos).  Em sentido oposto,  plataformas digitais que oferecem vários serviços via internet e a economia digital monetizaram a interação humana, prenderam os usuários às infraestruturas das plataformas, aprofundaram  as desigualdades econômicas globais e concentraram o poder em um pequeno número de empresas de tecnologia. 

O papel da IA ​​nesse cenário global em evolução é único. Uma tecnologia,  que utiliza as grandes quantidades de dados produzidos pela atividade digital para executar tarefas que simulam ou se aproximam das funções cognitivas humanas (como aprendizado a partir de dados, reconhecimento de padrões, processamento de linguagem natural ou previsão),  demanda uma base de evidências mais robusta sobre os efeitos ​​na área da saúde, Estudiosos têm apontado para seu papel no aprofundamento das desigualdades e no avanço dos efeitos prejudiciais das influências comerciais na saúde.

Os esforços corporativos da indústria da tecnologia para impedir e reduzir a regulamentação e aumentar a capacidade das corporações para aumentar os lucros apesar de prejuízos para saúde e bem-estar são análogos aos de setores como o do tabaco e o de alimentos ultraprocessados. A mercantilização de dados pessoais e comportamentais, a consolidação do poder das plataformas, a terceirização de funções públicas para atores digitais privados e arranjos de governança que privilegiam a inovação e o crescimento do mercado em detrimento da supervisão democrática e da proteção do interesse público são causas das assimetrias de poder econômico e político que caracterizam a economia política da tecnologia digital. 

Consequente o “solucionismo tecnológico” que tenta apresentar as tecnologias digitais como única solução adequada é uma falácia. Práticas digitais especificas para a saúde são controversas. A utilização de dados   para tomar decisões sobre resultados de grande relevância social (por exemplo, quem tem maior probabilidade de se beneficiar de um transplante de órgão) pode incentivar erros.  Dados incompletos, incorretos ou estruturalmente enviesados ​​(representando de forma inadequada deficiência, raça, gênero etc.) poderão orientar decisões que excluem pessoas de chances socialmente importantes (por exemplo, a recusa de um transplante de órgão necessário). 

Em contrapartida,  a conversão de relatórios ou registros profissionais em dados digitais (por exemplo, prontuários eletrônicos de saúde) e o uso de  modelos de IA ​​para traduzir jargão profissional para uma linguagem acessível (por exemplo, em exames médicos e diagnósticos) facilita a melhor compreensão de conhecimentos técnicos,  antes inacessíveis (por exemplo, sua própria condição de saúde), estimulando  os pacientes  a agir de forma mais proativa, defendendo seus próprios interesses junto aos profissionais de saúde).

Entretanto, dados provenientes de fontes públicas utilizados para criar modelos de aprendizado de máquina focados em informação (por exemplo, chatbots baseados em IA); disponibilizados ao público com o objetivo de aumentar o engajamento (por exemplo, ChatGPT ou DeepSeek podem fornecer conteúdos imprecisos ou enganosos sobre sintomas exigentes de atenção médica.

Consequentemente, os efeitos das  trajetórias de tecnologias digitais sobre a saúde precisam ser estudados e submetidos a uma governança adequada, visando proteger e promover a saúde pública. Somente por meio de ações de governança específicas em múltiplos domínios (incluindo aqueles relacionados à atividade econômica e à infraestrutura digital)  é que os países poderão se comprometer, de forma adequada, com um futuro digital sustentável e justo para a  saúde pública nacional e global.

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